O que acontece quando seus ídolos resolvem mostrar o lado "real"? O BTS está no centro de uma discussão acalorada após o trailer do documentário BTS: The Return, da Netflix, revelar cenas dos membros bebendo e usando palavrões durante o processo criativo. Será que essa busca por autenticidade pode sair pela culatra?

BTS em cena do documentário

A decisão da HYBE e a justificativa

De acordo com uma prévia do documentário, exibida em um evento no dia 20 de março, os fãs terão acesso a momentos íntimos dos integrantes, incluindo reuniões noturnas com bebidas e sessões de composição com linguagem mais... colorida. A pergunta que não quer calar: a empresa aprovou isso?

Cena do trailer do documentário BTS: The Return

Em declaração à imprensa, a vice-presidente da BigHit Music, Kim Hyun Jung, explicou a escolha. Ela afirmou que o objetivo era mostrar um lado genuíno do grupo enquanto eles iniciam um novo capítulo, a chamada "fase 2.0".

Claro, os artistas e nossa equipe interna tiveram discussões. A conclusão foi que, ao começarmos um novo capítulo 2.0, queríamos mostrar um lado honesto e genuíno. Os membros inicialmente hesitaram, mas depois de ver o produto final, ficaram satisfeitos e expressaram gratidão ao diretor.

— Kim Hyun Jung, VP da BigHit Music

Kim Hyun Jung, vice-presidente da BigHit Music

A reação dos netizens coreanos: autêntico ou desnecessário?

A explicação da empresa, no entanto, não convenceu uma parte do público coreano. Em comunidades online como o TheQoo, a crítica foi imediata e severa. Muitos questionam se beber e xingar são sinônimos de ser "real".

Print de comentários críticos na comunidade TheQoo

Os comentários revelam um descontentamento com a direção que a imagem do grupo está tomando:

  • “Se beber e xingar é o que conta como autenticidade, eles já não mostraram o suficiente disso?”

  • “O que beber e xingar têm a ver com ser autêntico?”

  • “Os fãs realmente esperam ver isso de ídolos? Apenas cumpram seu papel. Também não gosto daquelas tatuagens.”

  • “Sejam genuínos no palco, em vez disso.”

  • “Eles já mostraram isso em shows e até no meio das ruas de Seul, não podem manter um pouco disso em privado?”

BTS: The Return documenta a produção do quinto álbum de estúdio do grupo, Arirang, e estreia na Netflix no dia 27 de março, às 16h (horário da Coreia).

Fontes: News1 e TheQoo

A visão dos fãs internacionais: uma divisão de opiniões

Enquanto a reação coreana parece mais unificada na crítica, o cenário internacional, especialmente entre os ARMYs, é um verdadeiro campo de batalha de opiniões. Nas redes sociais, o trailer viralizou e dividiu os fãs. De um lado, uma parcela comemora a quebra da imagem "perfeita" e controlada.

"Finalmente estamos vendo os homens por trás dos ídolos", escreveu um usuário no X (antigo Twitter). "Eles têm mais de 30 anos, trabalham sob pressão imensa. Beber uma cerveja enquanto compõem é o mais normal do mundo. Achar que isso é escândalo é infantil." Outros destacam a cena em que RM parece frustrado durante uma sessão de gravação, soltando um palavrão. "Isso é arte. É processo criativo. Nem tudo são flores e coreografias perfeitas", argumentou uma fã.

Do outro lado, uma facção mais tradicional dos ARMYs expressa desconforto. O argumento principal não é moral, mas estratégico: será que essa exposição, em um momento de hiato e transição para o serviço militar, é benéfica para a imagem de longo prazo do grupo? "Eu amo eles de qualquer jeito, mas fico pensando nos pais que deixavam os filhos pequenos assistirem... Agora vão ter que explicar por que o Jin está com uma garrafa de soju na mão", comentou uma fã em um fórum privado. Há também quem tema que essa narrativa de "artistas sofrendo" seja explorada de forma sensacionalista, reduzindo anos de trabalho duro a momentos de estresse.

O dilema da autenticidade na indústria do K-pop

Esse caso do BTS coloca um holofote em uma discussão antiga e complexa dentro do K-pop: até onde vai a "autenticidade" permitida? A indústria foi construída sobre um modelo de ídolos quase inatingíveis, com vidas privadas rigorosamente guardadas e imagens públicas meticulosamente curadas.

Nos últimos anos, porém, vimos uma mudança de paradigma. Grupos como MAMAMOO sempre carregaram uma imagem mais "despojada", e até a HYBE, com grupos mais novos como LE SSERAFIM, investe em uma vibe mais "real" e menos plastificada nas redes sociais. O BTS, em particular, sempre caminhou nessa linha tênue. Eles falaram abertamente sobre ansiedade, burnout e pressão em músicas como "Black Swan" e "UGH!", e em discursos como o da ONU.

A questão que o documentário levanta é: será que mostrar o processo – com sua bagunça, frustrações e vícios de linguagem – é o próximo passo lógico nessa jornada? Ou existe um limite que, uma vez cruzado, quebra o encanto para uma parte fundamental do público? A Netflix, plataforma global por excelência, claramente aposta na primeira opção, buscando um conteúdo que dialogue com audiências acostumadas com a estética "raw" de documentários de artistas ocidentais.

Especialistas em indústria cultural apontam que essa é uma aposta arriscada, mas possivelmente necessária para a "fase 2.0". "O BTS não pode ficar preso à imagem de 'sete garotos perfeitos' para sempre, especialmente agora que estão entrando na casa dos 30", analisa um colunista de entretenimento em um portal coreano. "A transição para serem vistos como artistas consagrados, e não apenas ídolos, passa por humanizá-los de verdade. O problema é que 'humanizar' para um coreano conservador e para um fã ocidental podem ser coisas completamente diferentes."

O trailer, por si só, já cumpriu um papel: gerou um debate fervoroso que garante que todos os olhos estarão na Netflix no dia 27. Resta saber se, após assistirem ao documentário completo, os críticos se sentirão validados em sua indignação ou se os defensores da "verdade nua e crua" sairão vitoriosos. Uma coisa é certa: o BTS, mais uma vez, está redefinindo as regras do jogo, mesmo em seu período de hiato.

Com informações do: Koreaboo