Lembra quando a gente achava que o BTS nunca mudaria sua essência? Com o lançamento do novo álbum ARIRANG e sua faixa-título totalmente em inglês, uma entrevista antiga do líder RM voltou a circular nas redes e deixou muitos ARMYs refletindo.

A polêmica do "ARIRANG" e a busca por um hit global
O álbum ARIRANG chegou cercado de expectativa, mas também de críticas. Muitos fãs expressaram decepção com a falta de influência coreana mais marcante, especialmente na faixa principal. A discussão foi tão grande que até comparações com outros fenômenos do K-pop, como Kpop Demon Hunters, surgiram, com alguns dizendo que o impacto cultural do novo trabalho do BTS foi menor. Você também sentiu que faltou um pouco da "alma" coreana nas novas músicas?
Foi nesse clima que um trecho de uma entrevista antiga do RM, dada anos atrás, ressurgiu como um fantasma do passado. A declaração, que você pode ver na imagem abaixo, parece bater de frente com a direção musical atual do grupo.

"Se usássemos inglês, não seríamos mais BTS": A declaração que virou profecia?
Na entrevista, RM foi categórico: "Nós não queremos que nossa identidade ou autenticidade sejam comprometidas cantando músicas com letras em inglês. Mesmo que fazer isso nos permitisse chegar ao topo, não é isso que desejamos. Se de repente começássemos a cantar músicas totalmente em inglês, não seríamos mais BTS."
Ler isso agora, depois do lançamento de ARIRANG, é no mínimo curioso, né? A gente se pergunta: será que a pressão por um sucesso absoluto nas paradas globais falou mais alto? Ou será que a visão do grupo sobre identidade e mercado simplesmente evoluiu com os anos?
Enquanto a discussão sobre o uso do inglês esquenta, outra polêmica tomou conta do fandom: a distribuição de linhas vocais no álbum. Parece que ARIRANG não trouxe apenas uma mudança no idioma, mas também reacendeu debates antigos sobre a visibilidade de cada membro dentro das faixas.
E aí, qual a sua opinião sobre tudo isso? Para nós, fãs, é sempre um balanço difícil entre torcer pelo sucesso mundial dos nossos ídolos e querer que eles mantenham a raiz que nos conquistou. Será que é possível ter os dois?
Fonte: theqoo
O contexto da época: Um BTS em ascensão e a "Barreira do Idioma"
Para entender o peso daquela declaração, é preciso voltar no tempo. A entrevista original foi concedida por volta de 2017/2018, um período em que o BTS já explodia globalmente com Love Yourself: Her e Love Yourself: Tear, mas ainda enfrentava o que muitos chamavam de "barreira do idioma" no mercado ocidental. A estratégia do Big Hit (atual HYBE) era justamente usar a língua coreana como um pilar de autenticidade, um diferencial que os distinguia. Cantar em inglês era visto, por uma parte considerável do fandom e da crítica, como uma "venda da alma" para as rádios americanas. RM, como líder e principal porta-voz, estava na linha de frente defendendo essa identidade linguística.
É interessante notar que, mesmo naquela época, a postura não era absoluta. O grupo já havia lançado versões em inglês de singles como "MIC Drop (Steve Aoki Remix)" e colaborado com artistas ocidentais. A declaração de RM parecia se referir mais especificamente a um álbum completo ou uma faixa-título totalmente em inglês, algo que de fato não aconteceu até muito mais tarde. Será que a linha que ele traçou era mais tênue do que parecia?
A evolução (ou ruptura?) da estratégia musical
O caminho até ARIRANG foi pavimentado por singles que testaram as águas. "Dynamite" (2020) foi o primeiro grande hit totalmente em inglês, seguido por "Butter" e "Permission to Dance". Na época, a justificativa oficial girava em torno de "trazer alegria durante a pandemia" e conectar-se com fãs de forma mais direta. Muitos ARMYs aceitaram como um presente especial, um desvio temporário. Mas com o tempo, esses desvios começaram a parecer uma nova estrada principal.
Analistas de mercado, como os do site AllKpop, argumentam que essa foi uma evolução natural e necessária para um grupo que atingiu um patamar de superestrela global. A pressão por números recordes no Billboard Hot 100, streams massivos e presença em playlists internacionais criaria um ambiente onde músicas em inglês se tornam quase uma "moeda de troca" para manter a relevância no topo. Outros artistas, como o supergrupo Kpop Demon Hunters, também navegam nessa dualidade, mas talvez com uma mistura mais explícita de elementos coreanos em sua sonoridade.
O que dói no caso do ARIRANG não é apenas o inglês, mas o contexto. O título do álbum faz referência a uma famosa canção folclórica coreana, um símbolo nacional. A expectativa criada por esse nome era de uma imersão profunda na cultura coreana, uma resposta artística às raízes. A desconexão entre o título e o conteúdo linguístico da faixa principal é o que, talvez, tenha gerado o choque maior. Foi uma promessa não cumprida?
O fandom dividido: Nostalgia vs. Progresso
Nas redes sociais, a ressurreição da entrevista do RM acendeu dois debates paralelos. De um lado, os fãs mais antigos, muitas vezes chamados de "puristas", usam o print como um símbolo de um "BTS que se perdeu". Eles postam trechos de letras complexas e poéticas de eras como The Most Beautiful Moment in Life ou Wings, questionando se a simplicidade lírica de alguns singles em inglês faz justiça ao legado do grupo. Para eles, a declaração antiga é uma profecia cumprida de forma melancólica.
Do outro lado, uma parte do fandom argumenta que é injusto prender artistas a declarações de quase uma década atrás. "Pessoas mudam, artistas evoluem", é um argumento comum. Eles apontam que o próprio RM, em suas mixtapes solo e no álbum Indigo, explora o inglês de forma profunda e artística, sem perder sua essência. Será que a questão, então, não é o idioma em si, mas como e por que ele é usado? Um single comercial para as paradas é a mesma coisa que uma expressão artística pessoal?
Um terceiro grupo, mais pragmático, simplesmente celebra o sucesso. Para eles, ver o BTS no topo das paradas, quebrando recordes e alcançando novos públicos, é a realização máxima de um sonho. O idioma é apenas uma ferramenta. Essa visão, no entanto, esbarra naquela pergunta fundamental que RM mesmo fez anos atrás: até que ponto a ferramenta redefine o artesão?
A discussão vai além do BTS e toca em um nervo exposto de todo o K-pop. Até onde um gênero musical que se vende como "coreano" pode se internacionalizar sem se diluir? O sucesso de ARIRANG nas paradas provará que a estratégia do inglês foi acertada, mas será que o preço para esse sucesso será um distanciamento daquilo que fez os fãs se apaixonarem inicialmente? O RM de 2018 talvez temesse exatamente esse trade-off. O RM e o BTS de 2026 parecem dispostos a testar seus limites.
Com informações do: Koreaboo





